sexta-feira, 20 de maio de 2011

Análise da obra "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector

A Hora da Estrela (1977) foi o último livro de Clarice Lispector publicado enquanto a autora era viva. É um texto riquíssimo que possibilita várias interpretações e várias descobertas a cada nova leitura. Portanto, vou tentar expor nesta análise um pouco do que apreendi ao lê-lo.

Esta que era uma escritora fundamentalmente marcada pela sua narrativa profundamente intimista, fazendo uma espécie de monólogo onde a narradora dialogava com ela mesma, nesta obra apresentou sinais de mudanças. Clarice pôs os seus olhos sobre o social, construiu um texto mais extrospectivo, enveredou-se por uma trama por trás da narração (e não só um simples instante que desembocava numa série de reflexões subjetivas) e até utilizou-se de um narrador, Rodrigo S.M., para então conversar com o leitor. Entretanto, essas novidades não significam que não há momentos de introspecção. Sim, há.

E por falar em trama, vamos a ela. A história dos acontecimentos é simples: gira em torno de uma jovem nordestina chamada Macabéa, que mora no Rio de Janeiro, para onde se mudou com sua intragável tia/madrasta que morreu tempo depois. Ela habitava em um quarto que divide com quatro moças, as quatro Marias, e arranja um emprego de datilógrafa. Conhece Olímpico de Jesus, também nordestino, ambicioso, por quem logo se apaixona. Porém, este a trai com sua companheira de trabalho, Glória, já que Olímpico não via chances de ascensão social em Macabéa. Resolve então, por conselho da própria Glória numa atitude talvez de remorso, consultar uma cartomante, que por sua vez prediz-lhe um futuro brilhante, que não acontece, muito pelo contrário.

A linguagem é igualmente simples para aquiescer com a vida da personagem principal: "(...) meu material básico é a palavra." (...) "Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro - e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência." A história é, então, sobre uma inocente jovem que vive no anonimato, oprimida pela pobreza e pela sociedade. É a história do desamparo e a função do narrador é permear na sua mazela e dar algum destaque à sua parca vida, já que os outros não a enxergam: " (...) tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama."


Macabéa não se dava conta do significado de sua existência e da indiferença com que a mesma era tratada, não fazendo diferença para as pessoas ela existir ou não e, por isso mesmo, achava que era feliz. Até o momento que se consultou com madame Carlota, a cartomante. Ao expor o quão ordinária era sua vida, a mulher assutou Macabéa que até então não suspeitava da sua miséria. Porém, a cartomante também deu um mundo novo à pobre nordestina ao predizer um futuro ditoso em que se casaria com um gringo rico. Saiu de lá "grávida de futuro". Mas o destino se fez cruel e negou-lhe o futuro ao ser atropelada quando atravessava a rua.

Aliás, uma realidade é jogada em nossa cara: o futuro não existe. No início do livro nos é contado que um de seus títulos alternativos, "Quanto ao futuro", "é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto final". E já nas últimas páginas, o narrador decreta: "As coisas são sempre vésperas e se ela não morre agora está como nós na véspera de morrer, perdoai-me lembrar-vos porque quanto a mim não me perdoo a clarividência." Estamos sempre na iminência de morrer.

A morte, todavia, é tratada como a redenção e a hora do auge do ser: "Algumas pessoas brotaram no beco não se sabe de onde e haviam se agrupado em torno de Macabéa sem nada fazer assim como antes pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam, o que lhe dava uma existência." É no momento de morrer que saímos do nosso anonimato e abandono para ganharmos notoriedade e compaixão, ficamos mais "populares". Logo, a hora da morte é a hora da estrela!


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